Anvisa autoriza produção de mosquitos com Wolbachia da Flyttr para o combate à dengue

Aprovação libera uma nova linhagem, mais tolerante ao calor, e abre caminho para o acesso em larga escala; a fábrica de Campinas já está em funcionamento e tem capacidade para produzir até 190 milhões de mosquitos por semana

Por PEDRO HENRIQUE PINHEIRO
4 7 Min

Anvisa autoriza produção de mosquitos com Wolbachia da Flyttr para o combate à dengue
Flyttr

A Flyttr (anteriormente conhecida como Oxitec) anunciou nesta quarta-feira (22/7) que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a produção e a liberação comercial de mosquitos Aedes aegypti portadores da bactéria Wolbachia — um avanço significativo no controle da dengue no Brasil. A partir de sua fábrica em Campinas, a maior do mundo em produção de mosquitos, a Flyttr tem capacidade para produzir até 190 milhões de mosquitos por semana com Wolbachia, por meio da Plataforma Sparks.

A autorização abrange a liberação comercial de duas linhagens: os mosquitos com a linhagem wMel, já utilizada no Brasil, e os mosquitos com a nova linhagem wAlbB, tolerante a temperaturas mais altas. A inclusão da wAlbB amplia o uso da tecnologia em cidades de clima mais quente e cria a possibilidade de atender regiões do país ainda não contempladas pelos programas do Ministério da Saúde. Trata-se de uma cepa já implantada em larga escala pelas autoridades de saúde da Malásia e de Singapura.

O objetivo da Flyttr é ampliar as opções de combate à dengue, à zika e à chikungunya em todo o território nacional, em alinhamento com o Programa Nacional de Controle das Arboviroses do Ministério da Saúde. A produção instalada no Brasil também permitirá atender outros países severamente afetados pela dengue na América Latina e na Ásia. 

 

Além de garantir o fornecimento de mosquitos com Wolbachia de alta qualidade e em escala, a aprovação introduz competitividade em um mercado que, até então, contava com apenas um fornecedor autorizado no país. A entrada da Flyttr estimula a concorrência e tende a reduzir os custos de implementação para os cofres públicos, ampliando o acesso a um método de controle biológico já comprovado.

“A aprovação representa um marco importante não apenas para a Flyttr, mas também para as comunidades afetadas pela dengue em todo o Brasil", afirma Grey Frandsen, CEO da Flyttr. "Até agora, o acesso à tecnologia Wolbachia esteve limitado pela capacidade de produção, pelo custo e pela complexidade da implantação. Nosso objetivo é tornar essa solução comprovada mais acessível, mais escalável e mais simples de implementar."

Um novo modelo para os municípios

A decisão tem impacto direto sobre a forma como as cidades brasileiras planejam seus investimentos em saúde pública. Campinas, por exemplo, anunciou recentemente um aporte de R$ 12 milhões para a construção de uma biofábrica própria de mosquitos. Com a autorização da Anvisa e a fábrica da Flyttr já em operação na cidade, esse recurso poderia ser redirecionado: em vez de financiar a construção e a operação de uma unidade produtiva, o município, alinhado com o Ministério da Saúde, poderia optar por contratar a produção diretamente da Flyttr e aplicar o valor onde ele gera resultado mais imediato — na proteção de um número maior de pessoas. Na prática, o mesmo orçamento passa a se traduzir em mais cobertura e uma maior população protegida, no lugar de uma nova infraestrutura fabril. 

Inovação biológica

A Wolbachia é uma bactéria que ocorre naturalmente em cerca de 60% das espécies de insetos. Quando estabelecida no Aedes aegypti, ela reduz drasticamente a capacidade do mosquito de transmitir não apenas o vírus da dengue, mas também os da zika e da chikungunya. Como a característica é herdada pelos descendentes, o método se torna autossustentável nas populações locais ao longo do tempo.

A autorização concedida à Flyttr traz dois diferenciais centrais: a inclusão de duas linhagens distintas de Wolbachia, que expande o uso da tecnologia para cidades de clima mais quente, e o método de liberação por caixas, que simplifica a logística, dispensa a instalação de biofábricas locais e reduz a necessidade de contrapartida do município.

Produção em escala e logística simplificada

Diferentemente das abordagens que dependem do transporte de mosquitos adultos vivos e da operação de biofábricas regionais, a Plataforma Sparks simplifica toda a cadeia logística. O produto é entregue ainda na forma de ovos, em pequenas caixas fáceis de transportar e armazenar, que são ativadas diretamente no local de soltura. Ao produto, basta adicionar água: os ovos seguem seu ciclo natural e eclodem, liberando mosquitos que se acasalam com a população local e transmitem a Wolbachia às gerações seguintes.

Esse processo reduz a complexidade e o custo da implantação e amplia o acesso a áreas remotas. A Plataforma Sparks incorpora ainda sistemas de baixo custo para monitoramento de mosquitos, ferramentas digitais para planejamento e recursos de decisão apoiados em inteligência artificial, oferecendo às cidades os dados necessários para direcionar as intervenções onde terão maior impacto.

A unidade da Flyttr em Campinas (SP) já está em operação, e tem capacidade substancialmente superior à dos programas de Wolbachia existentes. A biofábrica, onde já é produzido o Aedes do Bem, opera em escala suficiente para atender tanto iniciativas nacionais de saúde pública quanto a demanda de outros países.

"O Brasil é, há muito tempo, líder na adoção de abordagens inovadoras em saúde pública", afirma Natalia Ferreira, diretora-geral da Flyttr no país. "Essa aprovação demonstra uma confiança crescente no papel que as ferramentas biológicas podem desempenhar ao lado das medidas tradicionais de controle de vetores. Acreditamos ser um passo importante rumo a um futuro em que ferramentas profissionais e de alta qualidade para a prevenção da dengue estejam disponíveis a todas as comunidades que delas precisarem."

Sobre a Flyttr

A Flyttr é uma plataforma de soluções em biotecnologia com sede no Reino Unido e atuação global, pioneira no desenvolvimento de soluções biológicas seguras e sustentáveis para o controle de insetos que transmitem doenças e destroem plantações. Antes conhecida como Oxitec, a Flyttr trabalha em parceria com governos e comunidades para implementar tecnologias com foco na proteção da saúde pública e ambiental.


 

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Pedro Henrique Alves Pinheiro
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