A rotina de trabalho mudou bastante nos últimos anos. Agora nos deparamos com reuniões virtuais, planilhas, e-mails, mensagens instantâneas e horas seguidas em frente ao computador. Ao mesmo tempo, crescem as queixas de cansaço visual, dores de cabeça e crises de enxaqueca após longos períodos de exposição às telas. Embora o uso de dispositivos eletrônicos não seja a causa da doença, ele pode funcionar como um importante gatilho para quem já possui predisposição.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 60% dos trabalhadores que utilizam computadores por longos períodos relatam sintomas relacionados à fadiga visual digital, como olhos secos, visão embaçada, dificuldade de foco e cefaleia. Em pessoas com enxaqueca, esses estímulos visuais intensos podem contribuir para aumentar a frequência e a intensidade das crises.
De acordo com a neurologista Dra. Helena Providelli, especialista em cefaleias e Diretora Técnica do Instituto Providelli, o cérebro de quem convive com enxaqueca apresenta uma sensibilidade aumentada aos estímulos do ambiente. "A enxaqueca é uma doença em que o cérebro processa determinados estímulos de forma diferente. Luz intensa, brilho excessivo, movimentos constantes na tela e muitas horas de concentração visual podem contribuir para ativar mecanismos envolvidos na crise em pessoas predispostas", explica.
Além da luminosidade emitida pelos dispositivos, o problema está relacionado ao tempo de exposição sem pausas. Permanecer por várias horas consecutivas diante de uma tela exige esforço contínuo da musculatura ocular, reduz a frequência do piscar, favorece o ressecamento dos olhos e aumenta a sobrecarga do sistema visual.
"O desconforto ocular não provoca enxaqueca em quem não tem a doença. Mas, em pessoas que já possuem essa predisposição, a fadiga visual pode atuar como mais um gatilho dentro de um conjunto de fatores que tornam o cérebro mais vulnerável ao aparecimento da dor", destaca a especialista.
Outro aspecto importante é que o trabalho prolongado em frente ao computador costuma estar associado a outros fatores conhecidos por favorecer crises, como estresse, poucas horas de sono, má postura, desidratação e longos períodos sem se alimentar. Em muitos casos, não existe um único responsável pelo episódio de dor, mas a soma de diferentes estímulos ao longo do dia.
Segundo a equipe do Instituto Providelli, a chamada fadiga visual digital também pode provocar sintomas como sensação de peso nos olhos, dificuldade para manter o foco, aumento da sensibilidade à luz e desconforto ao final do expediente. Em pacientes com enxaqueca, esses sinais merecem atenção porque podem indicar que o cérebro está sendo exposto a uma carga excessiva de estímulos.
Para reduzir esse impacto, os especialistas orientam medidas simples, como realizar pausas regulares durante o trabalho, piscar conscientemente com mais frequência, manter boa hidratação, ajustar o brilho da tela às condições do ambiente, posicionar corretamente o monitor e evitar permanecer várias horas consecutivas sem descanso visual.
"A tecnologia faz parte da nossa rotina e não deve ser encarada como uma inimiga. O objetivo não é eliminar o uso das telas, mas adotar hábitos que reduzam a sobrecarga sobre o cérebro e o sistema visual. Pequenas mudanças na rotina costumam fazer diferença para quem convive com enxaqueca", afirma Dra. Helena.
A neurologista reforça que dores de cabeça frequentes nunca devem ser consideradas normais. Quando os episódios se tornam recorrentes ou começam a interferir na qualidade de vida, é importante procurar avaliação especializada para investigar a causa e definir o tratamento mais adequado.
"Nem toda dor de cabeça relacionada ao uso de telas é enxaqueca, mas quem já possui a doença precisa conhecer seus gatilhos e aprender a manejá-los. Com acompanhamento adequado e algumas adaptações no dia a dia, é possível reduzir a frequência das crises e preservar a qualidade de vida, mesmo em uma rotina cada vez mais digital", conclui.
Fonte: Dra. Helena Providelli – Neurologista especialista em cefaleias e Diretora Técnica do Instituto Providelli; equipe multidisciplinar do Instituto Providelli.
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MARIA JULIA HENRIQUES NASCIMENTO
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