Economia, novo perfil de consumo e comunicação com a periferia abrem o 38º Congresso Abrasel

Primeiro bloco de painéis reuniu economistas e lideranças empresariais para discutir juros, preços e mudanças no comportamento do consumidor. Debates conectaram cenário macroeconômico, tecnologia e inclusão produtiva à realidade de bares e restaurantes.

Por TATIANE FERREIRA
5 8 Min

Economia, novo perfil de consumo e comunicação com a periferia abrem o 38º Congresso Abrasel
Jhonnie Mello

Os rumos da economia, o novo perfil do consumidor e o papel da comunicação no desenvolvimento de negócios em favelas marcaram o primeiro bloco de palestras e painéis do 38º Congresso Nacional Abrasel, realizado nesta quarta-feira (17), no Centro de Eventos e Convenções Brasil 21, em Brasília. Sob o tema “Escuta humana. Voz coletiva. Impacto real.”, o evento reúne empresários, gestores, especialistas e lideranças do setor de alimentação fora do lar para discutir o ambiente de negócios e o futuro do segmento.

A manhã do congresso foi dedicada a três debates que ajudaram a desenhar o contexto enfrentado pelos estabelecimentos: o impacto da economia sobre preços e consumo, as transformações nos hábitos de quem decide onde comer e beber e a importância da comunicação para fortalecer negócios em comunidades. A seguir, os principais pontos de cada painel.

Como a economia dos próximos anos vai afetar os preços e o consumo

O cenário econômico e seus efeitos sobre preços, consumo e expansão dos negócios abriram a programação. Mediado pelo presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, o painel reuniu o economista-chefe e membro do conselho do LIDE Pernambuco, Ecio Costa; o CEO do Grupo Alife Nino, Pedro Silveira; e Ricardo Bomeny, da Brazil Foodservice and Franchising Corporation.

Um dos principais temas foi o impacto da elevada taxa de juros sobre a atividade econômica. Para Ecio Costa, o país vive um momento de retomada da inflação, especialmente em alimentos e bebidas, o que ajuda a explicar a manutenção da Selic em patamares altos. Segundo ele, a taxa de juros funciona como um remédio amargo para conter a inflação, mas encarece o crédito e reduz o ritmo da economia.

“Para o consumidor é um freio”, afirmou Costa, que defendeu o enfrentamento das causas da inflação, incluindo fatores externos e questões relacionadas às contas públicas.

Pedro Silveira avaliou que os juros atuais já ultrapassaram o necessário para conter a inflação e alertou para os reflexos do cenário sobre as empresas, como o aumento das recuperações judiciais e o endividamento das famílias.

“A dose já extrapolou todos os limites. O famoso remédio vai matar o paciente pelo excesso de remédio”, disse. Para ele, a expansão dos negócios fica comprometida diante das margens apertadas: “Para expandir, você tem que gerar caixa. E as margens estão muito apertadas”.

Ricardo Bomeny reforçou a preocupação com o custo do crédito e destacou que o Brasil convive há anos com uma das maiores taxas de juros reais do mundo. Para ele, o problema está não apenas no nível dos juros, mas também no longo período em que permanecem elevados. O executivo alertou ainda para o efeito das recuperações judiciais de grandes empresas sobre pequenos fornecedores e defendeu que a redução dos juros depende de maior previsibilidade fiscal.

Os participantes apontaram a produtividade como um dos principais caminhos para enfrentar o aumento dos custos. Nesse contexto, a tecnologia e a inteligência artificial foram apresentadas como ferramentas para ganhar eficiência. Bomeny relatou que sua empresa já criou cerca de 120 agentes de IA para automatizar tarefas repetitivas e agilizar processos. Para os debatedores, os ganhos de produtividade serão cada vez mais decisivos para preservar a competitividade dos negócios.

O seu novo cliente: o que faz hoje as pessoas escolherem onde comer e beber

O segundo painel discutiu as mudanças no comportamento do consumidor e o que pesa hoje na escolha de onde comer e beber. Com mediação de Zé Edu, o debate reuniu o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles; a diretora de Marketing de Negócios do iFood, Beatriz Pentagna; e o diretor de Key Accounts da Heineken, Daniel Mota.

Renato Meirelles descreveu um consumidor pressionado pelo tempo e pelo orçamento, que ora decide pelo gasto, ora pelo tempo disponível. Segundo ele, esse cliente convive com novas prioridades de consumo e busca alternativas como cupons em pedidos de delivery para equilibrar as contas.

Para Beatriz Pentagna, a escolha de compra está cada vez mais ligada ao atendimento de expectativas. No delivery, os usuários que fazem mais avaliações positivas são também os que mais voltam a comprar no mesmo estabelecimento. Mais do que preço, afirmou, o consumidor busca um serviço que entregue comodidade, valor e experiência. Ela citou ainda o crescimento do consumo de comidas saudáveis e o avanço das compras voltadas ao café da manhã, além do aquecimento das vendas no período da Copa do Mundo.

Daniel Mota destacou a rápida transformação no consumo de cervejas, impulsionada por uma onda de bem-estar. Desde 2020, segundo ele, cresce a procura por cervejas sem álcool, que deixaram de ser uma necessidade para se tornar uma escolha. Para o executivo, a sensibilidade ao preço dá lugar ao valor percebido: o consumidor quer acertar na compra e tem buscado consumir melhor, às vezes em menor quantidade.

O painel também abordou o impacto das chamadas canetas emagrecedoras sobre os hábitos de consumo, a relação entre o cliente do salão e o do delivery e a entrada da Geração Z no mercado, descrita como mais conectada, mais atenta à saúde e mais avessa ao endividamento. A inteligência artificial voltou ao centro da conversa: Beatriz Pentagna afirmou que o iFood já mantém mais de 200 modelos de agentes de IA ativos, voltados a otimizar atendimento, organização de cardápio e recomendações ao consumidor.

Pertencimento, conexão e construção de comunidade: o papel da comunicação para negócios em favelas

O terceiro painel da manhã tratou do papel da comunicação na construção de pertencimento e no fortalecimento de negócios em favelas. Com mediação da repórter da revista Bares & Restaurantes, Eduarda Gomes, o debate reuniu o jornalista e CEO do Voz das Comunidades, Renê Silva; o gerente de Impacto e Relações Corporativas da Ambev, Wallace Ribeiro; e a coordenadora da Unidade de Empreendedorismo Feminino, Diversidade e Inclusão do Sebrae, Alessandra Ciuffo.

Renê Silva afirmou que os estabelecimentos localizados em favelas ainda não estão plenamente incluídos no circuito de mercado e que muitas empresas enxergam essas comunidades apenas como base de entregadores, e não como espaço de empreendedores e consumidores. Ele defendeu o investimento direto nesses negócios e citou ações de fomento ao empreendedorismo local, como uma iniciativa gastronômica que, segundo relatou, ajudou participantes a ampliar significativamente o faturamento.

Wallace Ribeiro destacou a importância de adequar a comunicação à forma como as pessoas se relacionam nesses territórios, com o WhatsApp como principal canal de contato com o pequeno comerciante. Ele apresentou a lógica da cocriação como caminho para gerar engajamento e relatou que a empresa atua com mentoria e crédito a empreendedores em regiões vulneráveis, em vez de oferecer soluções prontas.

Alessandra Ciuffo apontou o acesso ao crédito como o maior gargalo enfrentado por esses empreendedores e defendeu o uso de dados para orientar políticas de apoio. Segundo ela, o aval do Sebrae a um estabelecimento ajuda a destravar crédito em condições melhores, e a entidade mantém um programa voltado a avalizar negócios liderados por mulheres, com alto índice de adimplência. Ela reforçou que a comunicação inclusiva precisa ser tratada como eixo estratégico para alcançar públicos sub-representados.

Os debatedores destacaram ainda a força do consumo hiperlocal nas comunidades, marcado pela proximidade entre empreendedor e cliente, e citaram pesquisa da Abrasel segundo a qual parcela expressiva dos estabelecimentos recorreu a crédito e enfrenta dificuldade para honrar os pagamentos, reforçando a necessidade de soluções financeiras adequadas à realidade desses negócios.


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TATIANE RAQUEL FERREIRA RIBEIRO
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