Tecnologia não corrige a desorganização operacional

Por Vitor Rocha, Especialista em Marketing e Negócios Digitais e analista na LogPyx

Por GUSTAVO FRANCISQUETI
2 6 Min

Tecnologia não corrige a desorganização operacional
Vitor Rocha, LogPyx

Quando uma operação logística enfrenta filas de caminhões, atrasos recorrentes, docas ociosas e dificuldades para cumprir prazos, a reação mais comum é procurar uma nova tecnologia. Muitas empresas acreditam que a solução está na contratação de um sistema mais moderno, na digitalização de controles ou na automação de etapas operacionais. O problema é que, na maioria dos casos, o verdadeiro gargalo não está na falta de tecnologia, mas na ausência de processos bem definidos.

O pátio logístico é um dos ambientes mais sensíveis da cadeia de suprimentos. É nele que fornecedores chegam, veículos aguardam atendimento, cargas são movimentadas e decisões operacionais impactam diretamente toda a programação logística. Quando esse ambiente funciona sem regras claras, indicadores consistentes e fluxos padronizados, o resultado costuma ser previsível: aumento do tempo de permanência dos caminhões, desperdício de capacidade operacional e crescimento dos custos ocultos.

Esses custos são maiores do que muitas empresas imaginam. Segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), o custo médio de estadia no setor portuário varia entre US$ 100 e US$ 300 por contêiner ao dia. Embora esses números estejam associados ao ambiente portuário, uma parcela significativa dos atrasos que geram essas despesas tem origem dentro das próprias operações logísticas. Em muitos casos, o caminhão já chega ao destino, mas encontra um pátio desorganizado, sem critérios claros de atendimento ou gestão eficiente de filas.

O problema também afeta a produtividade. Estudos da Gartner indicam que a ociosidade das docas pode gerar perdas entre 15% e 30% em centros de distribuição de médio e grande porte. Isso significa que empresas frequentemente investem em ampliação de infraestrutura sem antes corrigir falhas básicas de organização operacional.

É justamente nesse contexto que o Business Process Management, ou BPM, ganha relevância. Diferentemente da ideia de que eficiência depende apenas de automação, o BPM parte de uma lógica mais estruturante. Antes de pensar em tecnologia, é preciso entender como o processo funciona, identificar gargalos, eliminar etapas desnecessárias, definir responsabilidades e criar mecanismos de monitoramento contínuo.

O BPM permite enxergar a operação como um fluxo integrado, e não como um conjunto de atividades isoladas. A metodologia busca transformar rotinas dependentes da experiência individual em processos documentados, mensuráveis e replicáveis. Isso reduz a dependência de conhecimento informal, aumenta a previsibilidade e cria condições para uma gestão baseada em indicadores.

Os resultados costumam ser expressivos. Segundo levantamento da Aberdeen Group, empresas que operam com processos de pátio bem estruturados registram redução de até 47% no Turnaround Time, indicador que mede o tempo total de permanência dos veículos na operação, além de aumento de 23% na utilização das docas. Esses ganhos não acontecem necessariamente porque a empresa adquiriu uma nova ferramenta, mas porque passou a operar com regras claras e processos controlados.

A própria gestão passa a ser orientada por métricas objetivas. Indicadores como tempo de check-in, ocupação de docas, tempo médio de espera e permanência dos veículos deixam de ser informações esporádicas e passam a fazer parte da rotina de acompanhamento da operação. Com isso, gargalos podem ser identificados antes de se transformarem em problemas maiores.

Somente depois dessa etapa a tecnologia passa a exercer seu papel mais relevante. Sistemas de gestão de pátio, conhecidos como YMS, tornam-se importantes porque ajudam a executar e monitorar os processos definidos pelo BPM. Eles automatizam controles, organizam filas, direcionam veículos e fornecem visibilidade operacional em tempo real. Porém, seu valor depende diretamente da qualidade do processo que está sendo automatizado.

Existe uma premissa simples que muitas empresas ignoram: tecnologia não corrige desorganização. Se o processo é falho, o sistema apenas executará esse processo falho de forma mais rápida. Por outro lado, quando existe uma estrutura operacional bem desenhada, a tecnologia se transforma em um poderoso mecanismo de disciplina, controle e rastreabilidade.

Por isso, a discussão sobre eficiência logística precisa começar menos pela escolha da ferramenta e mais pela construção da metodologia. O BPM oferece a base necessária para entender como a operação realmente funciona, identificar desperdícios e estabelecer padrões capazes de sustentar o crescimento.

O fim do caos logístico não acontece quando a empresa instala um novo sistema. Ele começa quando a operação deixa de depender da memória, da improvisação e da comunicação informal para funcionar com processos claros, indicadores consistentes e gestão contínua. A tecnologia potencializa esse resultado, mas é a metodologia que cria as condições para que ele aconteça.


*Vitor Rocha é Especialista em Marketing e Negócios Digitais e analista na LogPyx, empresa especializada em soluções tecnológicas para logística e gestão de pátios.

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GUSTAVO HENRIQUE DOS SANTOS FRANCISQUETI
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