Na era da Inteligência Artificial, a carreira deixou de ser uma linha reta
Por Nayara Tomio Sestrem é VP de Comunicação e Estratégia da ProWay, empresa focada em formação e desenvolvimento de talentos em TI.
Divulgação ProWay
Há poucos anos, profissões como engenheiro de prompts, especialista em IA generativa ou designer de conversas simplesmente não faziam parte do mercado de trabalho. Hoje, elas figuram entre as carreiras mais promissoras em empresas que apostam na Inteligência Artificial. Ao mesmo tempo, funções que pareciam consolidadas começam a ser transformadas pelo avanço acelerado da tecnologia. Diante desse cenário, uma pergunta ganha cada vez mais força: se as profissões mudam tão rapidamente, como orientar quem está entrando agora no mercado de trabalho? Essa foi uma das reflexões que me acompanharam durante o Web Summit Rio 2026, um dos maiores eventos de tecnologia do mundo. Entre os primeiros painéis que assisti estava o de Luana Lara, a brasileira mais jovem a construir uma fortuna bilionária por mérito próprio. Sua trajetória, de bailarina do Balé Bolshoi a estudante do MIT e fundadora da Kalshi, empresa avaliada em bilhões de dólares, é inspiradora. Como brasileira e mulher, é impossível não admirar sua história. Ao mesmo tempo, saí daquele painel com uma inquietação. As discussões em torno da concentração de riqueza nas grandes empresas de tecnologia, frequentemente simbolizadas pela figura de Elon Musk e pelas projeções sobre a possibilidade de ele se tornar o primeiro trilionário do mundo, mostram o quanto os modelos de negócio estão mudando. Empresas que muitas vezes não produzem bens físicos, mas desenvolvem tecnologia, dados e inteligência, concentram um valor econômico que seria inimaginável há poucas décadas. Essa transformação não diz respeito apenas ao mercado financeiro. Ela ajuda a explicar por que estamos vivendo uma mudança tão profunda também no mundo do trabalho. Ao longo do Web Summit, ficou evidente que a Inteligência Artificial deixou de ser uma aposta para o futuro. Ela já faz parte das decisões estratégicas das empresas, redefine modelos de negócio e influencia a forma como profissionais trabalham, aprendem e se desenvolvem. Para empresas de tecnologia, inovar sem incorporar IA já não parece uma opção. Mas talvez o aspecto mais interessante do evento não tenha sido a tecnologia em si. Foi perceber que a discussão deixou de ser sobre quais empregos desaparecerão e passou a girar em torno de outra questão: como preparar pessoas para um mercado que muda mais rápido do que qualquer currículo universitário consegue acompanhar? Durante décadas, fomos educados para escolher uma profissão, conquistar um diploma e construir uma carreira relativamente previsível. Esse modelo fez sentido por muito tempo. Hoje, porém, parece insuficiente. A velocidade das transformações tecnológicas tornou a aprendizagem contínua uma necessidade. Upskilling e reskilling deixaram de ser conceitos restritos às áreas de Recursos Humanos e passaram a fazer parte da estratégia das organizações que desejam permanecer competitivas. Em muitos casos, profissionais precisarão desenvolver novas habilidades diversas vezes ao longo da vida, mesmo permanecendo na mesma área de atuação. Talvez o maior erro que estejamos cometendo seja continuar preparando pessoas para ocupar cargos, quando deveríamos prepará-las para lidar com mudanças. Isso vale para empresas que desenvolvem seus colaboradores, para universidades que repensam seus currículos e, principalmente, para famílias que tentam orientar seus filhos sobre qual caminho seguir. Afinal, como escolher uma profissão aos 17 anos se muitas das oportunidades que existirão daqui a dez anos ainda nem foram criadas? Essa pergunta não tem uma resposta simples. Mas o Web Summit deixou uma mensagem bastante clara: as habilidades humanas serão cada vez mais valiosas. Comunicação, criatividade, pensamento crítico, raciocínio lógico, capacidade de resolver problemas complexos e disposição para aprender continuamente apareceram, direta ou indiretamente, em praticamente todos os debates sobre o futuro do trabalho. A Inteligência Artificial tende a executar tarefas com eficiência crescente, mas continuará dependendo de pessoas capazes de interpretar contextos, fazer boas perguntas e transformar conhecimento em inovação. As profissões continuarão surgindo, evoluindo e desaparecendo. A tecnologia seguirá avançando em um ritmo cada vez mais acelerado. O verdadeiro diferencial competitivo, no entanto, continuará sendo humano: a curiosidade para aprender, a flexibilidade para se adaptar e a disposição para evoluir continuamente. Talvez a profissão dos nossos filhos ainda nem exista. Mas as competências que os ajudarão a construí-la já podem, e devem, começar a ser desenvolvidas hoje. Nayara Tomio Sestrem é VP de Comunicação e Estratégia da ProWay, empresa focada em formação e desenvolvimento de talentos em TI.
Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a): NAYARA TOMIO SESTREM
nayara.tomio@proway.com.br