Inteligência artificial acelera transformação do mercado e muda a forma de preparar as novas gerações

Especialista catarinense afirma que habilidades humanas passam a valer mais do que conhecimento técnico em um cenário onde a IA redefine profissões e cria novas demandas para a educação

Por DANIELE LOTTERMANN
2 6 Min

Inteligência artificial acelera transformação do mercado e muda a forma de preparar as novas gerações
Divulgação

A inteligência artificial deixou de ser uma tendência para se tornar um dos principais motores da transformação econômica mundial. Da indústria ao varejo, da saúde aos serviços, empresas aceleram investimentos em automação, análise de dados e ferramentas inteligentes capazes de executar tarefas antes exclusivamente humanas. Ao mesmo tempo em que aumenta a produtividade, a tecnologia impõe um novo desafio: como preparar as próximas gerações para um mercado em constante reinvenção?

A discussão já ocupa espaço entre economistas, educadores e lideranças empresariais. Segundo o Fórum Econômico Mundial, aproximadamente 39% das competências exigidas pelo mercado de trabalho serão transformadas até 2030. Entre as habilidades consideradas mais relevantes para os próximos anos estão pensamento analítico, criatividade, inteligência emocional, liderança, resiliência, comunicação, capacidade de adaptação e aprendizagem contínua, competências que dificilmente poderão ser automatizadas.

No Brasil, o cenário acompanha esse movimento. O uso de soluções baseadas em inteligência artificial cresce rapidamente nas empresas, impulsionado pela digitalização dos negócios e pela necessidade de ganho de eficiência. Em Santa Catarina, um dos principais polos tecnológicos do país, o ecossistema reúne mais de 30 mil empresas de tecnologia e movimenta cerca de R$ 38 bilhões por ano, consolidando o Estado como referência nacional em inovação.

Para Michelle Zanëlatto, administradora, pedagoga, especialista em Gestão Estratégica de Pessoas e Head de Conteúdo da Leyla School, o impacto da inteligência artificial vai muito além da tecnologia. Segundo ela, a maior transformação acontece na forma como crianças e adolescentes precisam ser preparados para construir suas carreiras.

"Estamos diante de uma mudança estrutural. Muitas das profissões que essas crianças exercerão ainda nem existem, enquanto outras passarão por profundas transformações. Isso exige uma educação capaz de desenvolver competências que acompanhem qualquer cenário tecnológico."

Michelle explica que, durante décadas, o modelo educacional concentrou esforços na transmissão de conteúdo e na memorização de informações. Hoje, porém, esse conhecimento está disponível em segundos por meio de ferramentas baseadas em inteligência artificial.

"Quando qualquer pessoa consegue acessar informação instantaneamente, o diferencial deixa de ser decorar conteúdos. O que passa a gerar valor é saber interpretar dados, fazer perguntas inteligentes, resolver problemas complexos, tomar decisões éticas e trabalhar de forma colaborativa."

Ela observa que essa mudança já influencia os critérios de contratação adotados pelas empresas. Se antes a formação técnica era praticamente o único requisito, hoje cresce a valorização das chamadas competências comportamentais, ou soft skills, especialmente em ambientes altamente inovadores.

"Empresas procuram profissionais capazes de aprender continuamente. A velocidade das mudanças faz com que ninguém permaneça atualizado apenas com aquilo que aprendeu na faculdade. A capacidade de adaptação tornou-se uma competência estratégica."

Outro ponto que ganha relevância é a relação entre crianças e tecnologia. Embora a inteligência artificial faça parte da rotina das novas gerações, Michelle acredita que o uso consciente dessas ferramentas precisa ser ensinado desde cedo.

"A inteligência artificial é uma aliada poderosa, mas ela também exige responsabilidade. Precisamos formar crianças que saibam utilizar a tecnologia de forma ética, questionar informações, compreender seus limites e desenvolver autonomia intelectual. O pensamento crítico será uma das competências mais importantes das próximas décadas."

Segundo a especialista, famílias também começam a mudar suas prioridades. Cresce a busca por formações complementares que desenvolvam competências pouco exploradas no ensino tradicional, como educação financeira, liderança, empreendedorismo, comunicação, inteligência emocional e segurança digital.

Essa percepção motivou Michelle a liderar o desenvolvimento pedagógico da Leyla School, startup criada em Florianópolis para oferecer uma formação complementar focada no desenvolvimento humano de crianças e adolescentes. A metodologia reúne conteúdos organizados por faixa etária e integra temas como inteligência emocional, comunicação, educação financeira, liderança, empreendedorismo, ética digital, projeto de vida, comportamento social e pensamento crítico.

Para Michelle, preparar crianças para o futuro significa ir além da tecnologia.

"A inteligência artificial continuará evoluindo e fará parte de praticamente todas as profissões. O verdadeiro diferencial estará nas competências que nenhuma máquina consegue reproduzir completamente: criatividade, empatia, liderança, ética, comunicação e capacidade de inspirar pessoas."

Ela acredita que a educação viverá, nos próximos anos, uma transformação semelhante à que outros setores já enfrentam com a digitalização.

"Não estamos falando apenas de ensinar crianças a utilizar novas ferramentas. Estamos formando uma geração que precisará aprender durante toda a vida. O futuro pertencerá menos a quem acumula conhecimento e mais a quem consegue aprender, desaprender, inovar e se adaptar continuamente."

Em um cenário em que a inteligência artificial avança em ritmo acelerado e redefine o funcionamento da economia global, especialistas apontam que investir no desenvolvimento das competências humanas deixou de ser uma tendência para se tornar uma estratégia de longo prazo. Para Michelle Zanëlatto, essa mudança representa uma das maiores oportunidades da educação contemporânea: formar pessoas preparadas não apenas para acompanhar a tecnologia, mas para liderar as transformações que ela continuará provocando.


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