A Inteligência Artificial (IA) vem ganhando espaço nas áreas de Recursos Humanos (RH), impulsionada pela promessa de automatizar tarefas, reduzir custos operacionais e tornar processos mais eficientes. Apesar do avanço da tecnologia, muitas empresas enfrentam dificuldades para transformar esses investimentos em resultados concretos. Dados de julho de 2025 apresentados durante o Gartner HR Symposium/Xpo mostram que 88% dos líderes de RH afirmam que suas organizações ainda não conseguiram gerar valor significativo para o negócio a partir da IA.
“O principal desafio não está nas ferramentas em si, mas na forma como ela vem sendo aplicada. É preciso parar de gastar dinheiro automatizando processos que não deveriam existir e focar em usar tecnologia para criar vantagem competitiva”, explica Bruno Cortez, CEO da Elofy, plataforma de gestão de desempenho do grupo Zucchetti. Segundo o executivo, existe uma tendência de aplicar IA sobre fluxos que já eram burocráticos. “Quando isso acontece, a empresa apenas executa mais rápido algo que continua sendo ineficiente. O resultado é o que chamamos de burocracia digital: mais velocidade, mas sem transformação real.”
Para o especialista, o primeiro erro é automatizar processos sem antes questionar sua relevância ou impacto para o negócio. A solução, segundo ele, passa por redesenhar fluxos de trabalho antes de automatizá-los. “Muitas empresas ainda medem o sucesso da IA apenas pela quantidade de horas economizadas. O verdadeiro valor está na capacidade de gerar inteligência para apoiar decisões, identificar padrões e antecipar cenários que impactam diretamente o negócio”, explica Cortez.
Outro erro comum é deixar de utilizar a Inteligência Artificial para apoiar profissionais de RH em tarefas operacionais. De acordo com o relatório Modernizing HR: Design Thinking and New Technologies to Help Enhance Employee Experience, da Deloitte, profissionais da área podem gastar até 57% do tempo com atividades administrativas, como responder dúvidas sobre benefícios, férias, reembolsos e políticas internas. “Isso é um desperdício de capital intelectual”, comenta Bruno.
O novo papel do RH com a IA
Ao olhar para o futuro da tecnologia no setor, Bruno Cortez opina que “a inteligência artificial não vai substituir o RH, mas o RH que usa IA vai substituir o que não usa”. Para ele, o papel da área tende a migrar da gestão de processos para a gestão estratégica de pessoas, utilizando dados para apoiar decisões relacionadas à produtividade, retenção de talentos e crescimento da organização. “O novo papel do RH é ser a área de inteligência do negócio; não podemos continuar focados apenas na operação”, reforça.
No recrutamento, por exemplo, a IA já vai muito além da triagem automática de currículos. Ferramentas mais avançadas conseguem cruzar competências técnicas, histórico comportamental, alinhamento cultural e até indicadores de risco de turnover antes mesmo da primeira entrevista. Conforme o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades de recrutadores atualmente exigidas pelo mercado devem sofrer mudanças até 2030, e a IA já reduziu em 44% o número de entrevistas humanas necessárias para uma contratação bem-sucedida.
“Isso não significa que a IA vai eliminar o recrutador, mas sim a parte operacional do recrutamento. O que ganha valor é o profissional capaz de entender o negócio, interpretar dados e fazer a curadoria estratégica dos talentos”, afirma o executivo.
Ainda para Cortez, muitas empresas investem recursos significativos para atrair profissionais qualificados, mas falham na experiência dos colaboradores. Processos de onboarding dependentes de atividades manuais, liberações de acesso e alinhamentos entre diferentes áreas continuam sendo uma fonte de frustração. “A IA já permite personalizar o onboarding, automatizar processos entre áreas e acompanhar indicadores de engajamento, identificando sinais de desengajamento e risco de desligamento nos primeiros 30, 60 e 90 dias para que a empresa possa agir antes de perder talentos.”
Na avaliação do CEO, o principal risco para as empresas não é deixar de adotar novas tecnologias, mas limitar a Inteligência Artificial a iniciativas pontuais de automação, sem explorar seu potencial estratégico. “O RH do futuro será definido pela capacidade de transformar dados em inteligência para o negócio. A operação fica com a máquina. A estratégia, a empatia e a tomada de decisão continuam sendo humanas”, conclui.
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DANIELLY CARDOSO ALVES
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