O que acontece quando o esquecimento é uma doença biológica para uns, mas um apagamento histórico e social imposto a outros? É essa a premissa de "Elefante", espetáculo do grupo teatral Entre Atlânticas, que inicia temporada gratuita com apresentações em São Paulo, Franco da Rocha e Mairiporã.
Com dramaturgia e direção de Beatriz Nauali, a obra instaura um verdadeiro terror social cotidiano no palco para escancarar o racismo, a complexa relação entre memória e esquecimento, e as dinâmicas do trabalho escravo muitas vezes disfarçado no ambiente doméstico brasileiro.
A narrativa se passa no aniversário de 70 anos de Célia, uma matriarca branca que sofre de Alzheimer e vive o abandono familiar. Ela recebe a visita inesperada do neto, que desconhecia sua condição, e do amigável vizinho Qayin. É nesse cenário de tensões familiares que a memória da empregada doméstica Xhosa, uma mulher preta, paira no ar de maneira misteriosa. Enquanto a matriarca perde suas lembranças para a doença, a história de Xhosa revela um apagamento diferente: a invisibilidade estrutural imposta àqueles que historicamente sustentam milhões de casas em nosso país.
Concepção de direção
Na encenação, o drama familiar atua como um pretexto para esmiuçar a relação de opressão no eixo negritude-branquitude, materializada na dinâmica entre quatro presenças: duas mulheres (uma negra e uma branca) e dois homens (um negro e um branco). A montagem mergulha nas camadas de complexidade que sustentam essas dinâmicas, discutindo a lógica do lucro, o papel do cristianismo no apagamento das culturas e, sobretudo, a ancestralidade negra como um motor político de levante.
A proposta estética e narrativa visa causar rupturas profundas nas estruturas que ainda permitem a subalternização do trabalho de mulheres negras. "O espetáculo pede a radicalização do movimento antirracista, e o fortalecimento das frentes que combatem situações de exploração e violação dos direitos da população negra", enfatiza a diretora e dramaturga Beatriz Nauali.
Quem é o Grupo Entre Atlânticas?
Formado por artistas pesquisadores oriundos de cidades da Bacia do Juqueri, região periférica da Grande São Paulo, o grupo teatral dedica-se a investigar e materializar nos palcos as tensões raciais, a memória e a ancestralidade que moldam o Brasil contemporâneo. O coletivo tem como pilar a descentralização das artes, conectando o centro a territórios periféricos.
A temporada de "Elefante" tem fomento do programa "Sementes da Ancestralidade: Fomento à Cultura Afro-Brasileira" da Fundação Cultural Palmares, com apoio do Programa Rumos Itaú Cultural 2024-2025. Todas as apresentações serão seguidas de um bate-papo com o elenco.
Serviço | Elefante
Duração: 90 minutos
Classificação: 14 anos
Teatro Arthur Azevedo
Av. Paes de Barros, 955 – Mooca
De 2 a 5 de julho (quinta a sábado às 20h; domingo às 19h)
Ingressos gratuitos disponíveis na plataforma Sympla ou retirada 1 hora antes na bilheteria do teatro.Teatro Contadores de Mentira
Rua Vereador Antônio Morelato, 280 – Centro (Pq. Linear Central)/Mairiporã
Dia 10 de julho (sexta-feira), às 20h
Teatro Paulo Eiró
Av. Adolfo Pinheiro, 765 - Santo Amaro
Dia 16 a 19 de julho (quinta a sábado às 20h; domingo às 19h)
Ingressos gratuitos disponíveis na plataforma Sympla ou retirada 1 hora antes na bilheteria do teatro.
*As sessões dos dias 3 e 17/7 contarão com intérpretes em Libras
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Denilson Lucio de Oliveira
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