Canetas emagrecedoras e a Teoria dos Jogos: quando os sinais do mercado produzem desconfiança

*Guilherme Pianezzer

Por JULIA ESTEVAM
9 5 Min

Canetas emagrecedoras e a Teoria dos Jogos: quando os sinais do mercado produzem desconfiança
Rodrigo Leal

Poucos mercados cresceram tão rapidamente nos últimos anos quanto o das chamadas canetas emagrecedoras. Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro transformaram-se em um fenômeno global, impulsionando um mercado que poderá ultrapassar US$ 100 bilhões anuais na próxima década. Apenas nos Estados Unidos, os gastos com medicamentos da classe GLP-1 chegaram a US$ 71,7 bilhões em 2023, contra US$ 13,7 bilhões em 2018. O impacto foi tão expressivo que, em 2022, cerca de dois terços do crescimento econômico da Dinamarca foram atribuídos ao setor farmacêutico liderado pela Novo Nordisk, fabricante do Ozempic e do Wegovy.

À primeira vista, trata-se de uma história de sucesso. Contudo, a Teoria dos Jogos sugere uma leitura mais complexa. Em particular, os chamados jogos de sinalização ajudam a compreender um problema crescente: a perda de confiança causada pela proliferação de produtos falsificados. Um jogo de sinal ocorre quando uma parte possui informações que a outra não consegue observar diretamente. No mercado farmacêutico, o consumidor não sabe se um medicamento é legítimo, foi armazenado corretamente ou contém o princípio ativo anunciado. Sua decisão depende de sinais como embalagem, marca, local de compra e reputação do vendedor.

O exemplo clássico é o mercado de carros usados. O vendedor sabe se o veículo é bom ou ruim, mas o comprador não. Para convencer o comprador, o vendedor utiliza sinais como garantia, histórico de manutenção e laudos técnicos. O valor desses sinais depende de sua credibilidade. Quanto mais difícil for imitá-los, mais informativos eles serão.

O mesmo ocorre no mercado farmacêutico. O consumidor não possui condições de analisar a composição química de uma caneta emagrecedora. Ele não consegue verificar a pureza do princípio ativo, a qualidade do processo de fabricação ou as condições de armazenamento do produto. Sua decisão depende dos sinais que observa. A embalagem, a marca, o site de venda, a aparência do produto, os depoimentos de usuários e a reputação do vendedor tornam-se substitutos imperfeitos da informação que ele não possui.

A teoria distingue sinais baratos e sinais custosos. Sinais baratos podem ser facilmente copiados, como sites profissionais, embalagens sofisticadas e campanhas publicitárias. Já sinais custosos exigem investimentos difíceis de reproduzir, como certificações sanitárias, rastreabilidade, auditorias e canais oficiais de distribuição.

O problema é que o mercado das canetas emagrecedoras está sendo inundado por sinais baratos. Em 2024, a empresa BrandShield informou a remoção de mais de 250 sites que comercializavam versões falsificadas desses medicamentos, além da retirada de quase quatro mil anúncios fraudulentos nas redes sociais. Casos envolvendo produtos falsificados foram registrados em diversos países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Bélgica e Suíça.

Nesse contexto, a Teoria dos Jogos descreve dois cenários possíveis. No equilíbrio de separação, empresas legítimas e fraudulentas emitem sinais diferentes, permitindo ao consumidor distinguir produtos confiáveis de produtos perigosos. Já no equilíbrio de pooling, ambos passam a emitir sinais semelhantes. Como resultado, o consumidor perde a capacidade de identificar quem é legítimo e quem é fraudador.

A Teoria dos Jogos sugere que o principal desafio desse mercado talvez não esteja apenas na eficácia dos medicamentos, mas na qualidade das informações disponíveis para os consumidores. À medida que produtos falsificados reproduzem embalagens, marcas e estratégias de divulgação com crescente sofisticação, torna-se mais difícil distinguir fabricantes legítimos de fraudadores. Esse fenômeno tende a ampliar a desconfiança e reduzir a capacidade de escolha dos consumidores.

Nesse contexto, preservar a confiança dependerá do fortalecimento de mecanismos que permitam diferenciar produtos autênticos de falsificações, como rastreabilidade, certificações, sistemas de autenticação e canais oficiais de comercialização. Quanto mais claros e confiáveis forem esses sinais, maior será a capacidade do consumidor de tomar decisões seguras em um mercado em rápida expansão.

*Guilherme Augusto Pianezzer é professor de Matemática Financeira, doutor em Métodos Numéricos pela UFPR e professor-tutor dos cursos de Exatas do Centro Universitário Internacional Uninter. É autor de mais de 10 livros nas áreas de matemática, estatística, economia e educação financeira. Atualmente é estudante do curso de ciências econômicas na mesma instituição.

 


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JULIA CRISTINA ALVES ESTEVAM
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