Arte brasileira para quem? Coletiva AINDA BEM transforma a galeria em campo de batalha simbólico

Com curadoria de Clarissa Diniz, exposição na Danielian confronta o imaginário elitista da arte brasileira com obras que tensionam raça, classe e gênero

Por BRUNA LIRA
6 3 Min

Arte brasileira para quem? Coletiva AINDA BEM transforma a galeria em campo de batalha simbólico
Marlon Amaro, sem título, 2020. Óleo sobre tela, 80x100. Divulgação Danielian Imagens em alta resolução: https://flic.kr/s/aHBqjCU8wF
Ainda bem que este tipo de arte um dia irá acabar.” A frase de Gustavo Speridião dá nome — e tom — à exposição coletiva AINDA BEM, que estreia dia 26 de maio, na Danielian. Reunindo 28 artistas dos séculos XIX, XX e XXI, a mostra parte da provocação para questionar a tradição burguesa que moldou a ideia de arte no Brasil e no Ocidente.

Com curadoria de Clarissa Diniz, a exposição coloca em choque dois imaginários: de um lado, pinturas e retratos ligados ao olhar protegido de uma elite branca brasileira que buscava reproduzir padrões europeus de refinamento; de outro, obras contemporâneas que ironizam, desmontam e desafiam esse legado — inclusive o geometrismo industrial modernista, lido sublinhado em suas implicações com concepções de controle e higienização social, estética e cultural.


“Trata-se de imaginar e construir práticas artísticas que não obedeçam, tampouco se intimidem, diante das prescrições históricas, sociais e ontológicas legadas pela formação burguesa da ideia de arte”, afirma Clarissa Diniz.

Pinturas, vídeos e fotografias ocupam o espaço expositivo em um percurso que atravessa diferentes tempos históricos para revelar permanências incômodas. Mais do que revisitar a história da arte brasileira, AINDA BEM sugere que certas estruturas de poder seguem intactas — mesmo que com novas molduras —, apesar de serem, ainda, passíveis de desmonte e transformação.

Além de Gustavo Speridião, participam da mostra artistas como Álvaro Seixas, o perfil de instagram A Vida de Tina & New Memeseum, Cláudia Hersz, Lenora de Barros, Nati Canto, Pedro Vinicio, Rodolfo Amoedo, Louis Auguste Moreau, Thales Pomb e Victor Arruda.

AINDA BEM não oferece conforto nem respostas fáceis. A exposição prefere o atrito: reconhecer, em imagens do século XIX, as mesmas lógicas de exclusão e representação que ainda atravessam o presente. E talvez seja justamente por acontecer dentro de uma galeria comercial que essa crítica encontre sua forma mais aguda.
 

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BRUNA FERNANDA LIRA OLIVEIRA
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