Soluções genéricas SaaS ameaçam a eficiência digital do setor financeiro
Francisco Larez*
Progress Software / Divulgação
Por muito tempo, acreditamos que o software como serviço (SaaS) seria a resposta definitiva para a eficiência no ambiente corporativo. No mercado financeiro, onde cada minuto e cada dado têm peso estratégico, a migração para a nuvem parecia um caminho natural: menos infraestrutura, mais agilidade e inovação em ritmo constante. Mas, à medida que o mercado amadurece e a regulação se torna mais complexa, começamos a perceber que muitos dos sistemas que prometiam simplificar o dia a dia das instituições estão, na prática, tornando as operações mais fragmentadas e custosas.
Os SaaS genéricos, criados para servir a todos, acabaram se tornando parte do problema que tentavam resolver. Quem trabalha em bancos, corretoras ou fintechs sabe o quanto a rotina depende de sistemas interconectados: plataformas de atendimento, CRMs, ferramentas de assinatura digital, portais de compliance e tantas outras. Cada uma delas, sozinha, cumpre bem seu papel. Mas juntas, raramente conversam de forma fluida.
O resultado é conhecido: dados duplicados, fluxos interrompidos e um tempo enorme perdido em tarefas de reconciliação e conferência. Em um setor no qual a precisão é vital, além de incômoda, essa desconexão é um risco.
Um levantamento recente da IDC mostra que empresas que dependem fortemente de SaaS genéricos gastam, em média, 18% mais tempo em atividades de reconciliação de dados e até 25% mais com suporte técnico e integrações. Em outras palavras, a promessa de produtividade dá lugar a um custo invisível de manutenção e retrabalho.
E o impacto não para aí. Clientes também sentem essa fragmentação. A multiplicidade de logins, formulários e processos desconectados cria uma experiência cansativa, justamente em um campo que deveria transmitir confiança e fluidez.
No entanto, podemos vislumbrar uma virada de paradigma. Depois de uma década investindo em automação e escala, as organizações financeiras começam a compreender que a verdadeira eficiência não vem da padronização, mas da adequação ao contexto.
Essa percepção tem se traduzido em números. Em janeiro de 2024, a Forrester previu que o software e os serviços de TI representarão 69% dos gastos globais com tecnologia até 2027 (relatório "Global Tech Market Forecast, 2023 To 2027"). Previsões globais da IDC para 2025 também indicam que as empresas estão buscando soluções mais alinhadas aos resultados e priorizando a integração de IA e automação de forma mais estratégica, o que sugere uma abordagem menos focada na padronização genérica (IDC FutureScape - Worldwide Digital Business Strategies).
E essa abordagem faz sentido. Enquanto um CRM genérico ajuda a gerenciar leads, uma plataforma voltada a bancos e gestoras é capaz de integrar processos de KYC (“Know Your Customer” ou “Conheça seu Cliente”) e compliance para verificar a identidade, a origem dos recursos e o perfil de risco dos clientes, acompanhar trilhas de auditoria e automatizar fluxos de aprovação com base em regras regulatórias. É o tipo de funcionalidade que não se improvisa com um plugin.
E, apesar de legítimo, o argumento de que “soluções específicas custam mais caro” começa a perder força à medida que o ROI real é medido. Por isso, reavaliar o stack tecnológico significa fazer perguntas decisivas, como “nossos sistemas entendem as particularidades do nosso negócio? As integrações são naturais ou exigem remendos constantes? Estamos medindo o custo real da complexidade tecnológica?”. Se a resposta for negativa, é provável que o software esteja drenando valor, e não gerando.
Entre empresas reguladas, essa diferença se amplifica. Cada nova norma do Banco Central ou da CVM exige ajustes finos nos sistemas. Quando a base tecnológica não foi pensada para esse ambiente, essas mudanças se acumulam em camadas de complexidade. Já as plataformas verticais acompanham essas exigências de forma orgânica, com atualizações que seguem o calendário regulatório e reduzem o risco de não conformidade.
Outro efeito colateral da dependência de SaaS genéricos é a dispersão estratégica. Cada novo sistema é uma nova base de dados, uma nova rotina e um novo ponto de falha. Em pouco tempo, a instituição se vê com dezenas de ferramentas que resolvem partes do problema, mas não se integram entre si.
A consequência é a perda de visão unificada do cliente, justamente o ativo mais valioso do mercado financeiro. Sem essa coerência, fica mais difícil personalizar ofertas, antecipar riscos ou agir de forma proativa. Somado a isso, os SaaS especializados têm liderado a adoção de tecnologias emergentes, como inteligência artificial aplicada à análise documental, automação de auditorias e análise preditiva de comportamento de clientes. São avanços que fazem diferença no resultado e que dificilmente aparecem com a mesma agilidade em plataformas horizontais.
Logo, consolidar operações em plataformas verticalizadas não é apenas um ganho operacional, é uma forma de alinhar a tecnologia à estratégia de negócio. Por mais que a transformação digital do sistema financeiro tenha sido marcada por velocidade e escala, o momento atual exige refino. Não basta correr, é preciso correr na direção certa.
*Francisco Larez é vice-presidente da Progress Software para América Latina e Caribe.
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