O desafio social do emagrecimento moderno: Como manter o prazer alimentar e o convívio durante o uso de injetáveis.

A redução da dopamina associada à comida pode gerar isolamento social; o nutricionista discute estratégias de "reeducação do prazer" para que o paciente mantenha o bem-estar emocional e a vida social ativa enquanto atinge suas metas de saúde.

Por Bendita Letra
3 4 Min

Dr Lailson Ambrósio

 

O uso de medicações injetáveis para perda de peso revolucionou os consultórios, mas trouxe à tona um efeito colateral silencioso que vai muito além da balança: o distanciamento das mesas compartilhadas. De acordo com o Atlas 2024 da Federação Mundial de Obesidade, a previsão é que mais de 4 bilhões de pessoas vivam com sobrepeso ou obesidade até 2035, o que impulsiona a busca por soluções farmacológicas cada vez mais potentes. No entanto, ao suprimir drasticamente o apetite, esses fármacos alteram a relação do cérebro com a dopamina, o neurotransmissor do prazer, transformando celebrações antes festivas em momentos de desconforto ou apatia alimentar.

Para Lailson Ambrósio, médico nutrólogo, o tratamento não pode ser encarado como uma anestesia da vida social, mas como um convite para ressignificar o que nos traz satisfação. "Muitos pacientes relatam uma espécie de luto pela comida, pois o mecanismo biológico que antes trazia euforia ao comer é atenuado pela medicação", observa o especialista. Segundo ele, o segredo para o sucesso a longo prazo reside em não permitir que a perda de peso se transforme em isolamento, evitando que o indivíduo deixe de frequentar jantares e aniversários por não saber como se comportar diante da nova saciedade.

A estratégia proposta pelo profissional envolve o que ele chama de reeducação do prazer. Em vez de focar na restrição severa ou na contagem obsessiva de calorias, o paciente é incentivado a valorizar a qualidade sensorial do que consome e, principalmente, a troca afetiva com quem o cerca. "O emagrecimento exige que aprendamos a extrair dopamina da conversa, da risada e do ambiente, tirando o protagonismo absoluto do carboidrato ou da gordura", explica. Ele reforça que, quando o alimento deixa de ser o único refúgio emocional, a pessoa ganha liberdade para transitar em qualquer cenário sem se sentir uma estranha no próprio grupo.

Manter o bem-estar emocional durante o protocolo clínico é fundamental para evitar o abandono do tratamento ou o surgimento de novas angústias. O nutrólogo ressalta que o convívio social é um pilar de saúde tão vital quanto a taxa metabólica, e o suporte especializado deve orientar o indivíduo a lidar com a pressão de amigos e familiares que, muitas vezes sem maldade, estranham o novo ritmo à mesa. A ideia central é que o cuidado com o corpo seja uma ponte para uma vida mais leve, e não um muro que separa o indivíduo de seus afetos.

Na prática, isso significa planejar os encontros com uma nova mentalidade, priorizando escolhas que privilegiem o sabor em porções menores, respeitando o tempo do próprio organismo. O médico destaca que a transição para um físico mais saudável precisa ser acompanhada de uma mente que ainda saiba celebrar as conquistas e os rituais cotidianos. "Não estamos lidando apenas com números em uma balança; estamos cuidando de alguém que deseja ser saudável sem precisar abrir mão da própria identidade social", afirma.

O equilíbrio entre a eficácia da ciência e a preservação da saúde mental define quem conseguirá sustentar os resultados no futuro. Ambrósio defende que o acompanhamento deve ser humanizado, focado na autonomia para que o paciente entenda que o fármaco é uma ferramenta temporária, mas a capacidade de sentir prazer na vida  e na comida, de forma equilibrada  é o que realmente sustenta uma mudança de estilo de vida duradoura.


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Fonte: Dr Lailson Ambrósio - Médico Nutrólogo

 

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