“Não é falta de dinheiro”: por que o interior do Piauí sofre mais na saúde

Wallyson Soares aponta que desigualdade vai além dos recursos e expõe falhas na gestão, critérios do SUS e estrutura dos municípios

Por G.F comunicação
3 4 Min

“Não é falta de dinheiro”: por que o interior do Piauí sofre mais na saúde
Wallsyon soares / divulgação

A percepção de que o interior do Piauí recebe menos recursos para a saúde é recorrente, mas na prática, o problema é mais complexo. Segundo o advogado Wallyson Soares, advogado e especialista na defesa do direito à saúde, a desigualdade não está apenas no volume de verbas, mas principalmente na forma como esses recursos são acessados e aplicados pelos municípios: “Existe uma falsa percepção de que falta recurso. O que existe, na verdade, é uma desigualdade na capacidade de gestão e acesso”, afirma.

A avaliação ajuda a explicar por que, mesmo com repasses contínuos previstos no sistema público de saúde, cidades do interior ainda enfrentam dificuldades para garantir atendimento adequado à população. Isso ocorre porque o modelo de financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) combina transferências fixas com recursos vinculados a critérios como desempenho, cadastro da população e organização dos serviços. Na prática, municípios mais estruturados tendem a aproveitar melhor esses mecanismos e manter uma rede de atendimento mais consistente.

Por outro lado, cidades menores, que já enfrentam limitações técnicas e administrativas, acabam ficando em desvantagem. Auditorias do Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI) já apontaram fragilidades na gestão municipal, como ausência de planejamento adequado, falhas no acompanhamento das ações de saúde e inconsistências na prestação de contas.

Esses entraves têm impacto direto na ponta do sistema: “Sem planejamento, transparência e organização, o recurso não se transforma em atendimento. E quem sofre é o paciente”, destaca Wallyson.

A desigualdade também se evidencia na capacidade de investimento entre os municípios. Enquanto cidades maiores, como a capital, conseguem complementar os recursos da saúde com arrecadação própria, grande parte do interior depende majoritariamente de repasses estaduais e federais. Na prática, isso cria um ciclo difícil de romper: quem já tem mais estrutura consegue avançar, enquanto quem tem menos permanece limitado.

Além das questões administrativas e financeiras, fatores geográficos agravam ainda mais o cenário. Em diversas regiões do interior, a população enfrenta escassez de unidades de saúde, falta de profissionais e longas distâncias até hospitais de referência. Isso contribui para a percepção de que os serviços não chegam de forma adequada,mesmo quando há recursos sendo destinados.

Para o especialista, o problema ultrapassa a questão orçamentária e se consolida como uma falha estrutural: “A Constituição garante acesso universal à saúde. Quando o interior não consegue oferecer o mesmo nível de atendimento, estamos diante de um problema estrutural”, avalia.

Nesse contexto, a desigualdade observada no Piauí é resultado de uma combinação de fatores que envolvem critérios de financiamento, limitações na gestão pública, menor capacidade de arrecadação e desafios logísticos. Mais do que a quantidade de recursos, o que está em jogo é a capacidade de transformar esse dinheiro em políticas públicas efetivas.

“Não é só quanto se recebe, mas o que se consegue fazer com isso”, resume Wallyson.

Sem avanços consistentes em gestão, transparência e organização dos serviços, a tendência é que a distância entre capital e interior continue impactando diretamente a população que mais depende do sistema público de saúde.


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