Inteligência Artificial chega à educação infantil e acende debate sobre limites e protagonismo docente

Diretora pedagógica da Global Me School defende que a tecnologia pode apoiar processos pedagógicos, mas alerta que decisões educativas precisam permanecer sob mediação humana e ética

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Inteligência Artificial chega à educação infantil e acende debate sobre limites e protagonismo docente
Banco de imagem/Freepik

A rápida expansão da Inteligência Artificial (IA) no cotidiano brasileiro já alcança também as salas da educação infantil, e com ela surge um debate urgente sobre se a tecnologia é uma aliada do professor ou representa um risco à autoridade docente. Diante de crescentes sistemas capazes de gerar textos, organizar dados e sugerir respostas, educadores alertam que o centro da prática pedagógica não pode ser deslocado para algoritmos. 

A pesquisa “Percepções sobre Inteligência Artificial na Educação” do Observatório Fundação Itaú, em parceria com o Equidade.Info, apontou que 73% dos professores afirmaram utilizar a ferramenta para apoio em atividades em sala de aula. Porém, 48% do mesmo grupo relatou que não a usa para desenhar planos de aula.

“Compreender o que a IA faz, como identificar padrões, organizar grandes volumes de dados, sugerir estruturas de texto ou automatizar tarefas, é diferente de compreender seu papel na educação. Na infância, o que está em jogo é a construção do sentido e experiências”, afirma Tais Romero, diretora pedagógica da Global Me School, escola referência em ensino bilíngue infantil. 

Para a especialista, a autoria docente nasce da escuta sensível das crianças, da leitura do contexto e da capacidade de interpretar gestos, palavras e silêncios, o que não é possível por meio da automatização. Na Global Me School, inclusive,  as decisões da equipe pedagógica se dão com base nesses critérios. Dessa forma, a inteligência artificial pode apoiar na organização de registros ou na estruturação inicial de um documento, mas a decisão pedagógica precisa continuar sendo humana.

“Na prática, a IA pode contribuir ao organizar observações pedagógicas, sugerir perguntas investigativas ou apoiar tarefas administrativas que consomem tempo. Ao automatizar processos operacionais, a tecnologia pode liberar o professor para aquilo que nenhuma máquina substitui, que é a mediação das relações, a construção de significados e a reflexão crítica sobre a própria prática”, complementa Tais. 

O risco, segundo a diretora, está no uso acrítico. Quando planos de aula e relatórios passam a ser reproduzidos sem reflexão contextual, ou quando sugestões automáticas substituem o olhar singular do educador, ocorre uma inversão perigosa: o professor deixa de ser sujeito da interpretação pedagógica para se tornar executor de respostas padronizadas.

Na educação infantil, essa preocupação se intensifica. É nessa etapa que se estruturam as bases da linguagem, da convivência e da formação ética. A tecnologia, por mais sofisticada que seja, não compartilha experiências, não estabelece vínculos afetivos e não participa das relações que constituem o desenvolvimento infantil.

“A IA pode funcionar como um espelho que amplia possibilidades e provoca reflexão, mas não como um cérebro que decide pelo professor. Se ela for utilizada como apoio ao pensamento — e não como substituta da inteligência humana — podemos construir um caminho em que tecnologia e pedagogia caminhem juntas, sem que a singularidade da infância seja reduzida a padrões”, conclui Tais Romero. 


 

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GIOVANNA REBELO ALVES
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