O amor esse velho conhecido que inspira, machuca e, sobretudo, diverte é o protagonista absoluto de “Não é você, sou eu”, espetáculo que estreou no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, sob texto e direção de Léo Luz. A montagem, que marca a estreia do roteirista e ator como dramaturgo e encenador, entrega uma comédia leve, espirituosa e surpreendentemente poética sobre as (im)possibilidades do afeto em tempos de amores líquidos e corações impacientes.
Léo Luz, conhecido do público por participações em Até que a Sorte nos Separe 3, Incompatível e Vai que Cola, transporta para o palco sua verve cômica televisiva, mas temperada com um olhar mais íntimo e confessional. A peça nasce de crônicas pessoais e histórias ouvidas aqui e ali, o que confere ao texto uma autenticidade rara há humor, mas também melancolia, e o riso vem acompanhado de um leve suspiro de identificação.
O enredo ou melhor, a sucessão de cenas e diálogos que compõem uma espécie de mosaico afetivo propõe uma reflexão sobre as relações contemporâneas, as expectativas irreais e as pequenas tragédias do cotidiano amoroso. O público reconhece-se nas situações, nas neuroses e até nas piadas. “Quem nunca ouviu um ‘não é você, sou eu’?”, provoca o título, ecoando a hipocrisia e a ternura das nossas tentativas de terminar bem aquilo que começou mal.
O elenco, formado por Amanda Iglesias, Carolina Rial, Douglas Félix e Bernardo Peixoto, é o grande trunfo da montagem. Há química e cumplicidade em cena, fruto de um processo claramente colaborativo. Amanda entrega um carisma maduro e uma presença cênica segura; Carolina representa com frescor e intensidade as incertezas de uma geração que ama com urgência; Douglas traz o humor de corpo inteiro, equilibrando a comédia com um timing afiado; e Bernardo imprime naturalidade e emoção, sem jamais cair na caricatura.
A direção de Léo Luz aposta em um ritmo dinâmico e em uma encenação econômica sem grandes recursos de cenário, o foco está nas palavras e nos atores. Essa simplicidade reforça a universalidade do tema e permite que o texto respire. A música e a iluminação contribuem para criar uma atmosfera intimista, quase de confidência, como se estivéssemos ouvindo histórias de amigos em uma mesa de bar.
Ao final, “Não é você, sou eu” cumpre o que promete: faz rir, emociona e deixa uma pontinha de esperança no espectador. É teatro de proximidade, feito com sinceridade e afeto uma ode à arte de se apaixonar (e de se reerguer) com bom humor.
Uma estreia sensível e divertida, que transforma as dores do amor em poesia cotidiana. Léo Luz mostra que rir de si mesmo ainda é o melhor remédio e talvez o primeiro passo para amar de novo.
A peça fica em cartaz até 28 de novembro, sempre às sextas-feiras no Teatro Cândido Mendes (Rua João Cabral de Melo Neto, 222, Ipanema, Rio de Janeiro)
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EVELYN CAROLINE DOS SANTOS GUIMARÃES
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