*Um em cada quatro brasileiros adultos tem vergonha de sorrir; especialista explica por que tantos desistem de alinhar os dentes*
O sorriso pesa na autoestima do brasileiro. Segundo a pesquisa SB Brasil 2024, do Ministério da Saúde, 24,81% dos brasileiros entre 35 e 44 anos afirmaram já ter sentido vergonha de sorrir ou falar por causa da aparência dos dentes. O dado revela outro impacto: 14,82% disseram ter deixado de participar de festas ou passeios pelo mesmo motivo.
Ao mesmo tempo, nunca tantos adultos procuraram resolver o problema. O Censo da Odontologia 2025, realizado pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) em parceria com a ABIMO, aponta aumento significativo na procura por serviços odontológicos por adultos jovens e pacientes de meia-idade, especialmente em procedimentos estéticos.
Segundo análise publicada pela Associação Brasileira de Odontologia de Campinas em dezembro de 2025, o movimento inclui até pacientes acima dos 40 e 50 anos, impulsionado pelo avanço tecnológico dos sistemas ortodônticos.
Mas se a vontade existe e a procura cresce, por que tanta gente ainda desiste no meio do caminho? Para o ortodontista Dr. Breno Azevedo, de Campina Grande-PB, o problema não está na decisão de tratar, e sim nas opções oferecidas até aqui.
"O que leva as pessoas a adiarem um tratamento ortodôntico hoje é o fato de não aceitarem mais o uso do aparelho tradicional fixo, seja ele metálico ou estético, como os de cerâmica ou safira. Porque machucam, dificultam a higiene, dão um ar infantil e os tratamentos são mais longos", afirma.
O aparelho visível pesa especialmente para quem trabalha com a própria imagem. Segundo o especialista, muitos pacientes relatam que a associação do aparelho fixo com crianças e adolescentes chega a comprometer a credibilidade profissional no ambiente de trabalho. Há ainda um fator afetivo: casamentos, aniversários e outros eventos especiais fazem muita gente empurrar a decisão para depois, para não aparecer de aparelho nas fotos.
A alternativa que dominou a última década — os alinhadores transparentes removíveis — resolveu a estética, mas criou outro problema: a dependência total da disciplina do paciente. Os alinhadores precisam ser usados por pelo menos 21 horas diárias, alteram a voz e, quando exigem attachments, as retenções coladas nos dentes, perdem boa parte da proposta estética.
O ortodontista lembra ainda do constrangimento relatado por pacientes ao retirar as placas em restaurantes e dos atrasos causados quando os alinhadores são perdidos. Segundo ele, estimativas do setor apontam que cerca de 80% dos pacientes não finalizam o tratamento com alinhadores removíveis.
É nesse cenário que ganham espaço tecnologias que buscam unir a eficácia do aparelho fixo com a discrição dos alinhadores. Entre elas está o Magic Wire, sistema que utiliza um fio fixado na parte interna dos dentes, imperceptível para quem olha.
"O Magic Wire é um aparelho fixo que não depende da disciplina do paciente, é totalmente imperceptível, de fácil higiene e não altera a voz. O fio fica posicionado no mesmo eixo do centro de resistência do dente, que é o local onde se aplica menor força e se tem maior resultado. Isso gera menos incômodo e permite que as manutenções sejam feitas a cada dois meses — nos aparelhos convencionais, elas são mensais, e nos alinhadores, a cada 15 dias", detalha o Dr. Breno.
O perfil de quem procura a técnica, segundo ele, tem um traço em comum: a rotina que não pode parar. Esportistas, artistas, influenciadores e profissionais que trabalham com a imagem estão entre os principais públicos. A técnica é indicada para praticamente todos os tipos de tratamento, com exceção de crianças com muitos dentes de leite, em que a fixação do aparelho fica comprometida.
O especialista faz, porém, um alerta: por se tratar de uma técnica com mecânica específica e fios desenvolvidos exclusivamente para o método, o tratamento deve ser conduzido apenas por profissionais credenciados. Aplicada de maneira errada, a mecânica pode gerar movimentações indesejadas, comprometer a saúde periodontal e agravar o caso em vez de resolver.
E para quem ainda enxerga o alinhamento dos dentes como vaidade, o Dr. Breno deixa um recado final: a estética é só a ponta do processo.
"A grande maioria procura por questão estética, mas o principal é a função. Dentes bem alinhados e uma mordida encaixada mudam tudo: alimentos bem triturados melhoram a digestão, a mordida correta muda a postura da língua, a respiração, a postura corporal, a força física, a autoestima. Quando se corrige e se devolve a mastigação, a estética vem junto", conclui.